De acordo com o livro O que é o Feminismo, a desigualdade entre os gêneros está presente na história desde a Antiguidade. Todavia, parece haver pouco material sobre a mulher mesmo antes desse período, o que evidencia a atribuição de maior valor ao homem – dado que a história geralmente o possui como centro, se comparado com a mulher. O predomínio de um pensamento voltado ao homem é algo que, ao menos em nossa sociedade, soa como natural, assim como o machismo – por mais que hoje ele apareça de maneira “mascarada”
[1]. O que pretendo neste breve texto é dissertar sobre o gênero feminino e a “quebra” da relação entre espaço privado e público, a qual contribuiu para certa liberdade e conquista de relativo espaço feminino – na minha perspectiva, ainda tímido – na esfera pública. Para tal, é crucial o estranhamento em relação à maneira habitual que o homem olha para a mulher (e também a forma como ela olha para si mesma), para que assim seja possível um olhar não machista, ou menos machista, ainda naturalizado em nossa sociedade. Nesse sentido, tentarei fazer esse estranhamento e convido o leitor a fazer o mesmo.
Na Idade Média a mulher possuía um espaço maior na esfera pública – por mais que tenha ficado marcada sua presença nesse período como uma pessoa frágil, indolente à espera de seu cavaleiro, pelo romantismo da cavalaria. Antes e depois disso seu espaço não era tão representativo, mas em momentos de guerra a mulher possuía também um papel extra doméstico.
No livro O que é o feminismo, há exemplo do pensamento dos “letrados” em relação à mulher em 195 D.C. “Os senhores sabem como são as mulheres: façam-nas suas iguais, e imediatamente elas quererão subir às suas costas para governá-los” (ALVES e PITANGUY, 1984, p.14-15) – Senador Marco Pórcio Catão, discurso contra a revogação da lei que excluía as mulheres dos transportes públicos. E uma igualdade entre os sexos demorou a ser questionada efetivamente: “Até o século XVIII, a problemática da igualdade dos sexos não havia sido sequer cogitada” (YANNOULAS, 1994, p.7). Ora, estando a mulher presente na história desde o momento da existência do homem, ao menos teoricamente, por que ela não foi e ainda não é tão valorizada mesmo em ambientes acadêmicos
[2]? Será que hoje e no passado o homem esteve preocupado em perder seu espaço para o “sexo frágil”, dado que as potencialidades do gênero feminino se mostraram tão ou mais relevantes do que a mesmice cognoscitiva masculina? Eis alguns dos questionamentos que percorrem minha mente em relação ao estudo do gênero feminino.
O capitalismo foi um importante instrumento para a divisão social do trabalho. Segundo Émile Durkheim, essa divisão do trabalho geraria entre os homens a solidariedade orgânica, a qual tornaria as pessoas mais independentes; mas, ao menos nos casos considerados “normais”, os sujeitos sociais perceberiam a importância de um para o outro no seu dia a dia. Poderíamos afirmar com isso que o papel dito da mulher, tanto na esfera pública quanto na esfera privada, passaria assim a ser valorizado pela humanidade como um todo
[3]? Infelizmente a história nos mostra mais do mesmo. Os burgueses:
“Provaram à sua inteira vontade que a mulher é um ser inferior, incapaz de receber uma cultura intelectual superior e de fornecer a soma de atenção, de energia e de agilidade que reclamam as profissões em que ela deseja entrar em concorrência com o homem (...) Conclui-se pois que sob os pontos de vista moral, anatômico e fisiológico, a estatística social e histórica demonstra sempre que a mulher só está apta a desempenhar funções domésticas” (LAFARGUE, 1979, p. 41-42).Óbvio que com o tempo esse pensamento sofreu transformações, mas, ao menos inicialmente, o
ethos da burguesia não trouxe consigo a valorização da mulher (será que realmente esse
ethos trouxe consigo alguma valorização da mulher, por mais que fosse de maneira subdesenvolvida?). E quando as mulheres conquistaram o espaço acadêmico: “Estas demonstraram que o cérebro feminino, classificado pelos intelectuais como um ‘cérebro de criança’, era tão dotado como o cérebro masculino para assimilar todo o ensino científico” (Idem, p. 42). Mas, voltando ao capitalismo especificadamente:
“O capitalismo não desviou a mulher do lar para a produção social com o intuito de a emancipar, mas sim com o objetivo de a explorar ainda mais ferozmente do que explora o homem. A mulher, espoliada pelo capital, suporta as misérias do trabalhador livre e carrega ainda por cima as cicatrizes do passado” (Idem, p. 43).Poderíamos acrescentar ainda que a mulher recebe salários desproporcionais a seu cargo, quando é comparada com um homem que exerce o mesmo cargo que o seu; e também possuir uma dupla jornada de trabalho.
Fica na mente do senso comum – ao menos naquelas mentes do senso comum em que o pensamento ocidental
[4] consegue envolver e manipular sem com isso gerar nos sujeitos sociais pensamentos críticos em relação à estrutura social da qual faz parte – a impressão de que em todas as sociedades, de maneira geral, houve esse domínio do homem sobre a mulher, como também de sua pouca participação, senão nula, no espaço público. No entanto, isso é uma inverdade. Como exemplo para o estímulo a uma possível descristalização desse pensamento, ao menos das mentes ocidentais nas quais o machismo está ainda muito presente, resgato o seguinte trecho:
“Desmistificando a idéia de que a sujeição da mulher seja um destino irrevogável, a-histórico e universal, levanta-se a experiência da relação entre os sexos existente na Gália e na Germânia (...) Da mesma forma, os cronistas, europeus do século XVI, chegando à América, se surpreendem com a relevância da posição da mulher entre os Iroqueses e Hurons. Nestas sociedades de caçadores e coletores não havia uma divisão estrita entre economia doméstica e economia social. Inexistia o controle de um sexo sobre o outro na realização de tarefas ou nas tomadas de decisões. As mulheres participavam ativamente das discussões em que estavam em jogo os interesses da comunidade” (ALVES e PITANGUY, 1984, p. 15-16).Seria então o pensamento ocidental, desbravador de terras e mares, um dos responsáveis de quilate pelo machismo presente ainda hoje em nossas sociedades?
Até os anos 60 as mulheres não podiam sair de casa para realizar trabalhos simples, pois tinham que responder a um ideal romântico masculino; mas com a aceleração da modernização na década de 70 elas passaram a desempenhar maior papel na sociedade civil, por mais que o movimento feminista tenha origem em meados do século XIX. A mulher passa então, com a modernização, a “quebrar” a separação imposta a ela entre espaço público e privado, onde o homem vai ao trabalho e trás o capital econômico para o sustento familiar. Se antes socialmente a mulher era posta como a submissa em relação à divisão dessas esferas, a própria estrutura social auxilia na sua emancipação, embora não tenha sido esse o objetivo do sistema – conforme afirmado acima. E através de lutas feministas a mulher foi, pouco a pouco, conquistando seu espaço no meio social, embora seja contestável o tamanho desse espaço, pois ele faz alusão a um espaço maior do que efetivamente possui. Poderíamos refletir aqui sobre a diferença do cotidiano de operários do gênero feminino e do gênero masculino. Além do trabalho no espaço público a mulher, na maior parte dos casos, ainda realiza sozinha os afazeres domésticos.
Até que ponto ainda há em nós a presença do machismo, por mais que seja de maneira sutil? Isso se torna claro a partir de uma observação de si em relação ao machismo. Embora um olhar para si de maneira não-atenta possa revelar o sujeito como não pertencente à ideologia machista, o olhar mais atendo poderá revelar – ao menos em grande parte dos casos e sem eximir as mulheres dessa reflexão de si – o machismo ainda nos envolve, por mais que seja de maneira etérea.
Pelo que pude perceber do discurso feminista, a mulher não quer uma igualdade entre homem e mulher a ponto de não se distinguir um do outro, mas sim uma igualdade em direitos, salários equitativos, etc. O feminismo parece valorizar a identidade do gênero feminino, como aquele que nunca será igual ao homem por possuir peculiaridades diferentes da dele.
“Se, por um lado, as mulheres passaram a usufruir do prazer sexual, a exprimir seus desejos, a conhecer o próprio corpo, a ler seus sinais e a interpretar suas mensagens, escapando à normatividade das interpretações masculinas que anulavam sua sexualidade e desconheciam seu corpo, por outro lado essas mudanças de comportamento têm provocado muitas tensões e conflitos de gênero, pois ferem o código moral hegemônico masculino, bastante rígido e autoritário” (RAGO, p.39-40).Evidencia-se através dessa exposição, então, que o movimento feminino conquistou certo espaço no meio social hegemonicamente masculino; mas parece que para maiores conquistas desse espaço faz-se necessárias – ao menos a partir da concepção social quanto ao gênero que hoje encontramos incrustadas nos sujeitos sociais – constantes lutas em prol do feminino.
Notas
[1] Esse machismo é aquele que permeia nossa sociedade sem com isso ser expresso de maneira direta, mas com um olhar atento sobre a perspectiva e mesmo maneira de agir tanto de homens como de mulheres conseguimos constatar essa “maneira de ser” infelizmente ainda dominante na contemporaneidade.
[2] Deve-se salientar que existem variados grupos que estudam o gênero feminino nos meios acadêmicos, mas, ao menos a partir de minha experiência pessoal, pouco se é falado do gênero feminino em discussões em âmbito mais geral e mesmo nas salas de aula senão em espaços característicos, na esfera acadêmica, da discussão de gêneros.
[3] Pela esfera como um todo porque a própria mulher, como se sabe, é duplamente vítima desse machismo; primeiro porque esse pensamento é dominante e por isso está presente de maneira predominante no meio social, segundo porque com essa predominância do machismo a própria mulher acaba reproduzindo em seu pensamento e em suas atitudes essa ideologia machista.
[4] Refiro-me ao pensamento ocidental porque possuo um conhecimento restrito do pensamento oriental.-> Para ver outros textos desta Rodada Temática clique aqui.Bibliografia:ALVES, Branca Moreira e PITANGUY, Jacqueline. Introdução e Herança do Silêncio. In. __________.
O que é feminismo. São Paulo: Editora Brasiliense, 1984. (Coleção Primeiros Passos, n. 44)
DURKHEIM, Émile.
Da divisão do trabalho social. São Paulo: Martins Fontes, 2008. (Coleção Tópicos)
LAFARGUE, Paul. A questão da mulher. In: MACHEL, Samora; LAFARGUE, Paul; KOLLONTAI, Alexandra; KAPO, Vito; CHING-LING, Soon; TU, Mai Thi; POSADAS, J.
A libertação da mulher. São Paulo: Global Editora, 1979.
LOPES, Margaret Maria. Gênero e história das ciências: iniciando uma reflexão no Brasil. In: HIRATA, Helena e SEGNINI, Liliana (Org.).
Organização, trabalho e gênero. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2007. (Série Trabalho e Sociedade)
RAGO, Margareth. Ser mulher no século XXI ou Carta de Alforria. In VERTURI, Gustavo; RECAMÁN, Marisol; e OLIVEIRA, Suely de (orgs.).
A mulher brasileira nos espaços públicos e privados. São Paulo: Perseu Abramo, 2004.
VERTURI, Gustavo; RECAMÁN, Marisol; e OLIVEIRA, Suely de (orgs.).
A mulher brasileira nos espaços públicos e privados. São Paulo: Perseu Abramo, 2004
YANNOULAS, Silvia Cristina. Iguais Mas Não Idênticas. In
Estudos Feministas, Rio de Janeiro, v.2, p.7-17, 1994.