Qual o lugar do feminino?
Podemos perceber com as seguidas publicações que o gênero feminino esteve e ainda está condicionado a ocupar espaços na sociedade na medida em que o gênero masculino ocupa outro. Pode-se dizer também que, ao ocupar um espaço, o feminino leva consigo certos valores sociais, como o caso, apontado por Aline, de a mulher ser vista na prática educativa como cuidadora ao invés de educadora, o que revela valores maternais que estão associados a sua figura.
Nesse sentido, quando os indivíduos do gênero feminino também passaram a trabalhar nas indústrias, e a formarem o proletariado nas fábricas junto ao masculino, levaram consigo também sua condição social de serem vistos como algo de menos valor se comparado aos de gênero masculino, daí sua exploração maior, no sentido de que recebia menores quantias de salários do que os indivíduos masculinos pela mercadoria trabalho, o que significava mais-valia maior para o capitalista do que a produzida pelo gênero masculino.
A questão estética, que passa pelo “corpo”, também possui um lugar diferenciado ao feminino. Vemos todos os dias comerciais de televisão, revistas, entre outros, que enfatizam o padrão estético não apenas do feminino. Entretanto, a indústria pornográfica, por exemplo, vive principalmente de produtos que visam o público masculino. Com isto, podemos afirmar que há um maior consumo do corpo feminino, o que talvez nos coloque o fato de que o feminino ainda preserve a condição de objeto de prazer para outrem, o que é mais cultivado socialmente. O processo de erotização do corpo feminino teve maior aceitação do mercado.
Como se pode perceber, toda tentativa de possibilitar ao feminino outro lugar que signifique emancipação, pode significar uma luta contra a cultura, o que não estaria desvinculado da exploração do homem no modo de produção capitalista.
Natureza ou cultura?
Visto que parece ser um lugar comum afirmar a necessidade de libertação da mulher, é imprescindível buscar em que campo é colocada a necessidade referida. Pois, se entendemos que a condição do feminino é uma construção social e/ou cultural, assumimos a possibilidade de desconstrução para uma construção desejada. Se a condição do feminino é natural ou social e/ou cultural ancorada na natureza do sexo-mulher, deparamo-nos com uma dificuldade. Toda tentativa de libertação esbarrará na questão de natureza do gênero, o que significa que a mudança da condição pode estar atrelada a mudança da natureza do gênero. Mas há possibilidade de se mudar o que é inato? Se a possibilidade de libertação esbarrar-se na natureza, pode significar a impossibilidade de se realizar a libertação.
Mas conforme a publicação de Bruno Frausto, Mead nos mostra que não há um temperamento ligado a um sexo natural, e Beauvoir aponta que só existe um indivíduo como Outro se mediado por outrem. A publicação contribui com a assertiva, como o próprio título sugere, de que o feminino é uma produção cultural. Sendo assim, Bruno nos permite afirmar, apoiado em sua exposição de Kimmel, que se pode apenas falar de masculinidades e feminilidades, já que uma teoria do papel sexual e nossas próprias questões culturais não nos permitem esgotar as diferenças entre homens e mulheres.
Mudança? Transformação? Revolução?
O movimento feminino, ou qualquer outro movimento que pretenda a libertação do gênero feminino, faz defesa de uma mudança em certa medida. O movimento de emancipação do trabalhador, o que se atrela a uma revolução social – na perspectiva marxista –, defende a ruptura com o modo de produção capitalista. Portanto, essa luta estaria na verdade no campo de uma revolução social contra um modo de produção.
Outros movimentos, como os feministas, já afirmaram a luta por um direito ao próprio corpo e se disseram marxistas, porém, como afirmou André Toledo, essas lutas não podem ter pretensão de ruptura com o capitalismo, dado que se sustentam na lógica que pode ser dita capitalista ao afirmarem a noção de direito natural.
Com a publicação de Aline, podemos notar que a ocupação de alguns lugares pelo gênero feminino, acontece também na medida em que o masculino os abandona, pelo menos em parte. Este ponto nos coloca que um movimento de contestação, ou de luta por direitos, pode cair no erro de conquistar apenas os espaços desocupados pelo gênero masculino. Esse movimento seria apenas de preenchimento, e, se se limitasse a isso, constituir-se-ia minimamente - e no máximo - como um movimento de mudança.
Além desses pontos, uma outra questão é necessária de enfatizar. Muitos movimentos se formaram na pretensão de lutar por direitos iguais aos dos homens, o que significa ter caráter simétrico. As possibilidades de reais – e no mínimo – mudanças são poucas, devido ao fato de que muitas das questões que colocam o gênero feminino nas condições nas quais se situa são do campo da cultura, dito de outra forma, são construções sociais já cristalizadas e que muitas vezes não percebemos reproduzir. A saída aqui talvez seja a de afirmar – e agora me aproveito de um termo utilizado por André de Toledo, e talvez não no sentido posto por ele – um movimento assimétrico, no sentido de se sustentar na diferença, afirmado em uma imprevisibilidade que permite estabelecer um movimento que se possa dizer, pelo menos de certa forma, de transformação social e/ou cultural, de revolução social e/ou cultural. Um movimento de gênero não deve ser de igualar as mulheres aos homens e nem de igualar os homens às mulheres. Deve haver lugar para as diferenças e espaços onde estas possam se comunicar em igualdade, e talvez aí a importância da conquista de um espaço público – que Raphael Silveiras apontou como já ocorrido em certo sentido –, que não signifique supressão do privado. Um movimento de gênero deve se assentar na noção de justiça, o que está para além de uma questão de gênero, e que tem potencial para abranger as questões de gênero e outras que impliquem em impedimentos para tal realização. Certamente a defesa do espaço público está ligada a possibilidade de ocupação do mesmo pela pluralidade do ser humano. O que não esgota nossos problemas, dado que também a linguagem, por exemplo, é marcada pelos pré-conceitos em relação ao feminino. A conquista de espaços também não garante a anulação das formas de opressão, repressão, etc. Os movimentos funcionam talvez apenas como movimentos de constatação, revelam uma necessidade de se encontrar formas de re-significar coisas. A própria forma de se conceber alternativas deve ser posta em questão.
Aqui talvez tenhamos chegado à assertiva dessa publicação: pensar o feminino não basta, talvez pensar a linguagem, os códigos morais, desconstruirmos a leitura masculina de mundo, que sufoca o feminino, e que talvez exista antes mesmo das lutas de classes, como se pode entender.
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Bibliografia:
ALVES, S. Padrões estéticos e opressão feminina: há algo em comum?. Publicado em 04/11/2009 na Estação 'D'.
DE OLIVEIRA, A. A feminização do magistério. Publicado em 11/11/2009 na Estação 'D'.
DE TOLEDO, A. O que é, o que é? ou Feminismo e Ideologia?. Publicado em 28/10/2009 na Estação 'D'.
FRAUSTO, B. O gênero feminino como produção cultural. Publicado em 07/10/2009 na Estação 'D'.
LISBOA, P. O Gênero feminino: ausência, presença, emergência...?. Publicado em 30/09/2009 na Estação 'D'.
PAULINO, F. A mulher na modernidade de Baudelaire. Publicado em 14/10/2009 na Estação 'D'.
SILVEIRAS, R. A conquista do espaço. Publicado em 21/10/2009 na Estação 'D'.