"A Estação 'D' é um espaço criado por três estudantes de humanas para Discutir, Debater, Discordar, Discorrer, Dissertar, Desconstruir, Dialogar etc."

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Padrões estéticos e a opressão feminina: há algo em comum?

Em um primeiro momento gostaria de ressaltar como foi interessante notar que os textos desta rodada - acerca do gênero feminino - apresentaram referencias sobre a opressão sofrida pelas mulheres ao longo da história. SILVEIRAS (2009), em seu texto "A Conquista do Espaço", ressaltou a falsa ilusão de "emancipação" que se tem ao pensar na figura da mulher na modernidade: a mulher que "conquistou" seu espaço na produção capitalista, como que se esquecendo que a "conquista" de um lugar no meio da produção ocorreu já na Revolução Industrial (entre 1770 e 1830), como afirma TOLEDO, 2001:

Foi um processo vertiginoso, que mudou a situação da mulher de todas as classes. A ideologia burguesa do amor maternal mostrou toda a sua hipocrisia ao ser imposta para as mulheres de todas as classes sociais, mas só valer de fato para a mulher burguesa, que tinha tempo para ser mãe. As mulheres que não eram da burguesia foram confiscadas pelo capital, junto com seus filhos.(p.39)

No entanto, é inegável queas mulheres conseguiram, no decorrer das décadas do século XX conquistar inumeros direitos, inclusive direitos legais, como o voto, frequentar cursos superiores, se divorciar, etc mas a é fato notório que há ainda opressão e exploração. Diz TOLEDO (2009):

A maioria das mulheres não sabe que sua opressão não existia antes de que a sociedade se dividisse em classes sociais e surgisse a propriedade privada dos meios de produção [...]. Por isso, não sabem que, uma vez abolida a sociedade capitalista e impostas relações socialistas, a mulher será emancipada pelas mesmas formas que liberarão todos os trabalhadores e minorias raciais da opressão e exploração. (p.16)

Importante ressaltar que, segundo WOLF (1992), as, mulheres compunham 52,4% da população em 1992, ou seja, apesar de "sofrerem" repressões, discriminações e explorações - tal como as chamadas "minorias", as mulheres compõe uma maioria e, como afirmou TOLEDO (2001), a emancipação feminina viria juntamente com a emancipação da sociedade como um todo, com a quebre do capitalismo, está claro que o capital impõe formas de controle - às mulheres e à sociedade como um todo.
As mulheres, entretanto, são o alvo de um tipo de controle em especial, o do padrão de estética. Na era em que os simulacros são mais valorisados do que o real, a imagem feminina - que, se antes era tida como o símbolo da fertilidade e reprodução - sofreu um processo de erotização, como afirma WOLF (1992):" A qualidade chamada beleza existe de forma objetiva e universal. As mulheres devem querer encarná-la e os homens deve querer possuir mulheres que a encarnem."(p.15).
Afirma a autora que os padrões estéticos são variáveis de sociedade para sociedade e, que não há nenhuma justificativa certa de que a beleza é resultado da evolução genética mas sim, na sociedade capitalista ocidental, fruto da cultura e economia da sociedade moderna. Economia, pois encarnar um padrão de beleza imposto - normalmente oposto ao biótipo corrente - requer poder aquisitivo.

[...] industrias poderosas - a das dietas, que gera 33 bilhões e dolares por ano, a dos cosméticos, 20 bilhores de dólares, a da cirurgia plástica estética, 300 bilhões de dólares e a da pornografia, com seus sete bilhões de dólares- surgiram a partir do capital gerado por ansiedades inconscientes e conseguem por sua vez , através da sua influência sobre a cultura de massa, usar, estimular e reforçar a alucinação numa espiral econômica ascendente. (WOLF, 1992, p. 21)

A constante preocupação com a própria imagem, em estar de acordo com os padrões é, então, uma importante forma de controle por estimulação, como afirmou FOUCAULT: "[...] encontramos um investimento que não tem mais a forma de controle repressão, mas de controle estimulação : 'fique nu, mas seja magro, bonito, bronzeado.'"(1979, p.147). Também é uma forma de desestabilização das mulheres que tinham o potencial de quebrar a lógica capitalista:

Uma ideologia que fizesse com que nos sentíssemos valendo menos tornou-se urgente e necessária para se contrapor à forma pela qual o feminismo começava a fazer com que nos valorizássemos mais. Isso não exigia uma conspiração, bastava uma atmosfera. (WOLF, 1992, p.22)

Os simulacros da mulher considerada como o ideal passou a ser perseguido por um considerável número de mulheres das mulheres: quantas jovens brasileiras não gostariam de possuir o esteriótipo europeu encarnado pelas modelos?.E, mais do que propagar um ideal de beleza imposto, a ideologia do mito da beleza impôs a caricatura da fiminista feia e masculinizada:

A caricatura não é original. Foi criada para ridicularizar as feministas do séc. XIX. A própria Lucy Stone [...] foi atacada foi atacada [...]: 'mulher grande e masculina, de botas e charuto, dizendo palavrões como um soldado.' (WOLF, 1992, p.23)

Vê -se que não é nova a descriminação da mulher pela aparência. Hoje, programas de televisão, revistas, internet costumam a menosprezar mulheres que julgam não se encaixar nos padrões impostos. Tal fato, além de afirmar a ideologia do mito da beleza, é necessária para se haver um controle das etnias e esteriótipos minoritários, como afirma WOLF, 1992.
Mulheres consideradas bem sucedidas, que conquistaram um bom emprego e são consideradas cultas e bem informadas, segundo WOLF (1992), senten-se incomodadas por terem preocupações triviais como a preocupação com a própria aparência (importante ressaltar que a discriminação pela aparencia também é utilizada em empresas, não sendo raras reportagens sobre como usar a boa aparência para ajudar a conquistar um emprego), uma vez que tal questão costuma ser marginalizada no "rol do superfluo", pois se trata de mais uma forma de contrele sutil (com o intuito de desestabilizar a coesão de um grupo social, impor a competição entre os membros do grupo e estimular o consumo) da sociedade capitalista pós-moderna.

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Bibliografia:
WOLF, N. O Mito Da Beleza: Como as Imagens de Beleza são Usadas contra as Mulheres. Rio de Janeiro. Rocco, 1992
TOLEDO, C. Mulheres: o gênero nos une, a classe nos divide. São Paulo, 2001.
SILVEIRAS, R. A conquista do espaço. Texto publicado na Estação 'D' em 21 de out. de 2009.
FOUCAUL. M. Micrifísica do Poder. Edições Graal. RJ, 1979

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O que é, o que é? ou Feminismo e Ideologia

"Tudo que os homens escreveram sobre as mulheres deve ser suspeito, pois eles são, a um tempo, juiz e parte." POULAIN DE LA BARRE

Mais uma rodada?
Foi nos colocado um grande desafio: escrever sobre o gênero feminino. E, diante de tanto, emerge o reconhecimento do pouco que se sabe sobre o tema. Não se trata exatamente, de minha parte, de uma total falta de leitura ou reflexão sobre ele mas de não ter respostas para os problemas que surgem nesse caminho.
Até aqui, nesta rodada temática, fomos contemplados com a apresentação de dois aspectos muito importantes para a compreensão do feminino: sua história e sua construção. Bruno Frausto tratou a questão da construção da "mulher" (melhor dizer "papel feminino"?). Com ele somos levados à posição de Simone de Beauvoir em seu "O Segundo Sexo", onde encontramos sua argumentação poderosa sobre a possibilidade de unir a mulher como grupo, em todos os tempos e lugares, a partir de sua posição como oprimida e pelo aspecto biológico da posse do útero (melhor dizer, da capacidade de gerar descendentes). E, por outro lado, pelas investigações de Margaret Mead que apresentam sociedades onde o ethos feminino é completamente oposto ao de nossa sociedade ocidental moderna. De qualquer forma, a identidade da mulher (ou o papel feminino) aparece como uma construção social, ou seja, sem uma essencial, um fundamento natural último.
Raphael Silveiras nos apresenta uma certa história da mulher, ou melhor, de sua recente "conquista de espaço" - que segundo o autor seria insuficiente - acompanhando Branca Alves e Jacqueline Pitanguy em seu "O que é Feminismo". Nesse ponto somos ainda remetidos às questões que iniciaram essa rodada. Paulo Lisboa não nos propôs que pensássemos apenas no gênero feminino, também nos indicou sentidos: 'presença', 'ausência', 'emergência' e '...'. Quer dizer, somos levados a pensar novamente o "papel da mulher" mas como "espaço" e como "função" (penso aqui no modo como Paulo nos apresenta o feminino como uma função de transformação social - talvez possamos dizer como potência política - "destinada" a romper com valores que seriam masculinos).

A questão da ideologia
Pessoalmente fui remetido pela memória a um trecho de "O que é ideologia" de Marilena Chaiu onde uma posição comum de grupos feministas surge como lugar da conservação da hegemonia burguesa:

"Muitos movimentos feministas lutam contra o poder burguês porque ele é fundamentalmente um poder masculino que discrimina social, econômica, política e culturalmente as mulheres. É considerado um poder patriarcal, isto é, fundado na autoridade do Pai (chefe de família, chefe de secção, chefe de escola, chefe de hospital, chefe de Estado, etc.) É um poder que legitima a submissão das mulheres aos homens tanto pela afirmação da inferioridade feminina (fraqueza física e intelectual) quanto pela divisão de papéis sociais a partir de atividades sexuais (feminilidade como sinônimo de maternidade e domesticidade)." (CHAUI, p. 111)

Baseados nessa posição os grupos feministas defendem que: 1. as mulheres não devem se sujeitar, mas lutar por igual direito ao trabalho, 2. devem defender a liberdade do uso de seu corpo (CHAUI, p. 112). No entanto, essas duas idéias defendidas aparecem como inofensivas para a hegemonia burguesa e, até pelo contrário,
são absorvida por ela. Pois "defender a igualdade no mercado de trabalho não é criticar a exploração capitalista do trabalho, mas é mantê-la, fazendo com que as mulheres tenham igual direito de serem exploradas e de realizarem trabalhos alienados" e "defender a liberdade de usar o corpo porque este é propriedade privada da própria mulher e afirmar que tal direito define a mulher como pessoa autônoma, é esquecer que um dos pilares da ideologia burguesa, na sua forma liberal, é justamente a definição dos seres humanos por algo chamado de "direito natural" e que seria o direito à posse e ao uso do próprio corpo, posse que nos torna livres, liberdade que é necessária para formular a idéia burguesa de contrato" (CHAUI, pp. 112-113).
A posição de Chaui tende, portanto, para um feminismo que questiona toda a estrutura social vigente. Essa posição está de acordo com a origem cultural do papel do feminino, pois se é a cultura que determina a identidade do gênero feminino, deve ser necessário questionar toda a cultura para que se possa construir uma nova identidade.

O otimismo de Lipovetsky
No livro "A terceira mulher" Lipovetsky nos fala de três mulheres:
a primeira mulher, ou a mulher depreciada; a segunda mulher, ou a mulher enaltecida; e a terceira mulher, ou a mulher indeterminada. Conta-nos o autor que a mulher teria passado pelas duas primeiras posições (depreciação e enaltecimento) na história. A primeira mulher se refere ao tempo que rejeitavam a mulher e a tomaram como inferior: mulher, mal necessário confinado nas atividades sem brilho, ser inferior sistematicamente desvalorizado ou desprezado pelos homens" (LIPOVETSKY, p. 234). A segunda mulher se refere ao tempo em que as mulheres passam a ser valorizadas, idealizadas: "força civilizadora dos costumes, senhora dos sonhos masculinos, "belo sexo", educadora dos filhos, "fada do lar"" (LIPOVETSKY, p. 236). No entanto, mesmo quando "enaltecida" a mulher esta subjugada pelo homem, "pensada por ele, definida em relação a ele: não era nada além do que o homem queria que fosse" (LIPOVETSKY, p. 236).
No presente, entretanto, encontramos a terceira mulher! Essa sim uma mulher feita por si mesma e liberta do homem. O que caracteriza esse "novo passo" é o fato de a mulher ganhar autonomia, ter sido inserida no turbilhão das escolhas que caracterízam nossa situação contemporânea. Ou seja, "a mulher ideterminada" está livre porque tem em suas mãos as escolhas que devem definir seu lugar social.

Antropologia e feminismo
Passo, agora, a comentar a reflexão de Bruna Franchetto, Maria Laura Cavalcanti e Maria Luiza Heilborn. Em seu texto "Antropologia e Feminismo" as autoras percorrem as principais referências na determinação da identidade da mulher. Toda primeira parte do texto procura reunir as visões mais comuns sobre a identidade da mulher. Interessante notar que nesta rodada estivemos percorrendo, de forma geral, o mesmo caminho e, desta forma, chegamos às mesmas posições mais comuns que serão questionadas na segunda parte do texto a partir de uma reflexão antropológica.
A tese fundamental do texto de Franchetto, Cavalcanti e Heilborn se refere a questionar as construções universais sobre a mulher. Quer dizer, radicalizando a posição a famosa frase Beauvoir "Ninguém nasce mulher: torna-se mulher", as autoras encontram na mulher como construção social não apenas o fundamento da possibilidade de transformação na condição da mulher, como a inexistência da Mulher, mas de mulheres (CAVALCANTI; FRANCHETTO; HEILBORN p. 32-33).
O reconhecimento da pluralidade das mulheres torna possível avaliar a posição atual da mulher em nossa sociedade ocidental moderna. O Feminismo seria uma construção moderna, um desdobramento do individualismo moderno aplicado a questão da mulher e da família:

"No nosso caso, aquele que concerne à representação de/da mulher na sociedade, o feminismo vem expressar mais um desdobramento dessa ideologia individualista, agora investindo sobre um dos domínios renitentes à destotalização: a família" (CAVALCANTI; FRANCHETTO; HEILBORN p. 37)

As autoras realizam uma contextualização do Feminismo que o insere no movimento moderno como um desdobramento das características culturais deste tempo. Tratar-se-ia de propor "uma autonomia da sexualidade feminina", requerer "para o sexo feminino a autonomia atribuída ao masculino" (CAVALCANTI; FRANCHETTO; HEILBORN p. 35). Toda uma série de operações que não depende da reconstrução da cultura contemporânea e mesmo utiliza-se das categorias e estruturas desta sociedade. De fato, pensamos encontrar aqui um caso passível de ser subsumido no exemplo dado por CHAUI.
A força transformadora atribuída ao feminismo segundo Franchetto, Cavalcanti e Heilborn (pois há realmente a afirmação desta força) não precisa lidar com qualquer opressão burguesa. Quer dizer, não precisa questionar a estrutura social mas, somente, defender a possibilidade de igualdade de direitos (que já é uma categoria da estrutura social moderna). Por outro lado, as autoras relatam encontrar em movimentos feministas peculiaridades que tem um poder transformador. Trata-se de um exercício de práticas coletivas sem hierarquização que estão vinculados à defesa da igualdade; e do fato de trazerem para o campo coletivo temas que seriam assumidos como pessoais.

O que é, o que é?
Arrisco tomar algumas posições. Creio que tenhamos uma sociedade mais igual em certos sentidos. Experimento em diversos círculos sociais a presença das mulheres mesmo em posições de destaque. Mas não deixo de ouvir, aqui e ali, em meio à um conflito com alguma mulher, as mesmas falas depreciativas sobre elas. Experimento também minha própria relação com diversas mulheres quando penso tratá-las de forma igualitária. Mas percebo, mesmo nos círculos mais íntimos, uma diferença de interesses e preocupações quase geral. A multiplicidade do que experimento não parece propriciar qualquer juízo mais sólido.
O que sobra são questões diversas. Se há univocidade sobre o que é fêmea humana (assim como o que é o macho humano), quer dizer, se podemos definir sem grandes problemas as diferenças biológicas entre fêmea e macho, não há o mesmo tipo de facilidade quanto ao que seja a "mulher" e o "feminino". Se atamos 'mulher' e 'feminino' à "fêmea", então o problema parece resolvido, mas não damos sequer um passo na compreensão das "fêmeas humanas".
De qualquer forma está suficientemente demonstrado que "mulher" e "feminino" são construções sociais e que, desta forma, devem variar no tempo e no espaço. No entanto, a quase universalidade da assimetria entre machos e fêmeas com aquele como pólo mais forte, continua indicando para uma diferença essencial entre machos e fêmeas,iIndependentemente da origem que se dê para essa diferença (a questão biológica da gestação ou a estrutura social fundada no sistema de troca de mulheres).
Fica a questão da possibilidade de realizar uma outra organização social em que lutar contra a assimetria não signifique igualar as mulheres aos homens.

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Bibliografia:
ALVES, Branca Moreira; PITANGUY, Jacqueline O que é Feminismo. São Paulo: Editora Brasiliense, 1982 - 2ª Edição. (Coleção Primeiros Passos)
BEAUVOIR, Simone "Introdução" In: O Segundo sexo: Fatos e Mitos; volume 1; tradução Sérgio Milliet. - 2.ed. - Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.
CAVALCANTI Maria Laura V. C.; FRANCHETTO, Bruna; HEILBORN, Maria Luiza "Antropologia e Feminismo" In: ________ (Org.) Perspectivas Antropológicas da Mulher; volume 1. Rio de Janeiro: ZAHAR Editores, 1981.
CHAUI, Marilena de Souza O que é Ideologia. São Paulo: Editora Brasiliense, 1981 - 2ª Edição. (Coleção Primeiros Passos)
FRAUSTO, Bruno C. S. O gênero feminino como produção cultural. Publicado em 07/10/09 na Estação 'D'.
LIPOVETSKY, Gilles "III. A pós-mulher no lar" In: A terceira mulher: permanência e revolução do feminino; tradução Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
LISBOA, Paulo V. A. O gênero feminino: presença, ausência, emergência...? Publicado em 30/09/09 na Estação 'D'.
SILVEIRAS, Raphael de Souza A conquista do espaço. Publicado em 21/10/09 na Estação 'D'.

domingo, 25 de outubro de 2009

Notas sobre a Pedagogia

Raquel Ferreira dos Santos Tomaz
Estudante do primeiro ano de Pedagogia na Universidade Mackenzie

Histórico da Pedagogia
É necessário olharmos para a história para compreendermos como e com qual sentido surgiu a Pedagogia, para entendermos e refletirmos sobre a criação de diretrizes que melhor conceituem e a definam.
A origem da Pedagogia é confundida com a própria origem do homem. Conforme ele busca entender e modificar sua própria origem, vai se constituindo um saber específico, chegando aos dias atuais fortemente ligados ao termo Pedagogia.
Ao longo da sua história a Pedagogia foi assumindo diversos sentidos. No começo foi se constituindo como teoria ou ciência da prática educativa. Depois foi identificada com a filosofia. No positivismo foi assimilada a prática educativa e a partir do final dos anos 70 do século XX, a pedagogia enveredou para a autonomia científica. Em 1983 ela é vista como umas das ciências práticas.
Pouco depois Durkheim identificou três sentidos para a Pedagogia: como arte do educador, como reflexão sobre a ação educativa e como doutrina educacional.
No mundo contemporâneo a Pedagogia passa a ser um objeto de estudo, um conjunto de disciplinas formativas, um corpo teórico-prático e de saberes que se constituíram em seu saber histórico.
Não podemos desprezar os saberes construídos historicamente que conceituam a Pedagogia, pois são necessários para defini-la e fundamentá-la.

Os vários conceitos de Pedagogia
A pedagogia, no sentido epistemológico, significa arte de condução da criança e durante muito tempo foi entendida como arte e doutrina da educação.
Segundo Libâneo, Pimenta e Franco ao longo da história surgiram diferentes idéias em relação ao estudo científico da educação. Seriam quatro idéias, a respeito dessa questão: Pedagogia, única ciência da Educação; ciência da educação (onde desaparece o termo pedagogia); ciências da educação (excluindo a Pedagogia); ciências da educação( incluindo a Pedagogia).
A pedagogia não é a única ciência que estuda a educação, porém é ela que pode investigá-la no campo educativo.
De acordo com o CNE a Pedagogia é definida apenas como docência. Não deixam claro o conceito epistemológico de Pedagogia. Apenas dizem a que se destina: as modalidades de formação e as competências do ingresso.
A pedagogia é uma ciência que tem suas próprias especificidades. Não se resume na formação do educador, ela vai além.
De acordo com Libâneo, Pimenta e Franco, podemos definir Pedagogia como um espaço dialético para a compreensão e a operacionalização das articulações entre a teoria e a prática educativa. Ou seja, um espaço onde os indivíduos podem produzir saberes, buscando um diálogo entre a teoria e a prática.

Qual o objetivo da Pedagogia
Será que o único objetivo da Pedagogia é formar professores para atuar na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental?
Não, Pedagogia forma pedagogos, que é o profissional que vai estudar o que se insere na práxis da educação na sociedade.
Porem de acordo com a Lei de diretrizes curriculares nacionais de 1996 do Curso de Pedagogia, a resposta da pergunta acima é sim. Pois entendem que o pedagogo é um docente formado em um curso de licenciatura para atuar na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental.
As diretrizes curriculares a partir de 2006 definem a sua destinação, sua aplicação e a abrangência da formação a ser desenvolvida nesse curso. A formação do curso de pedagogia deverá assegurar a articulação entre docência, a gestão educacional e a produção do conhecimento na área da educação.

Formação do Pedagogo na Universidade
A Pedagogia se consolidou como disciplina universitária, a partir do momento em que Herbart distinguiu dois aspectos : reflexão ligado a Filosofia e o sentido empírico e prático inerente à Paidéia, sendo unificados num sistema coerente: os fins da educação e os meios da educação.
Durante toda história da Pedagogia, hora ela é exaltada, hora é desconsiderada como ciência. Isso fez com que a formação do pedagogo fosse pensada de diversas formas.
A formação do pedagogo na universidade foi reformulada diversas vezes, através da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, que regulamentam o curso.
A nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação nº.9.394, em 20 de dezembro de 1996, entra em vigor, tendo como principal característica a introdução das habilitações visando formar especialistas, subordinando a educação a uma lógica do mercado.
Em 1998 a Comissão Especialista de pedagogia, instituída para elaborar as diretrizes do curso, desencadeou um amplo processo de discussão sobre os pontos polêmicos com relação à formação, o próprio curso Normal Superior que até agora não possui suas próprias diretrizes. A comissão ouviu as coordenações de curso, entidades ligadas a educação e a Executiva Nacional dos Estudantes de pedagogia.
Apenas em 2006 as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Pedagogia, abre um amplo horizonte para a formação e atuação profissionais dos pedagogos.
A docência não passa a ser entendida apenas no sentido do ato de ministrar aulas. Ela pode atuar em espaços escolares como não escolares. Não se confunde mais com a utilização de métodos e técnicas unicamente pedagógicos longe da realidade histórica.
O curso de pedagogia deve favorecer uma formação que faça com que o pedagogo compreenda a complexidade da escola e a sua organização, que propicie a investigação no campo educacional e da gestão da educação em diferentes níveis e contextos.
Como profissional o pedagogo estará habilitado à formulação e gestão educacionais, formulação e avaliação de currículos e de políticas curriculares, organização e gestão de sistemas e de unidades escolares, coordenação, planejamento, execução e avaliação de programas e projetos educacionais, para diferentes faixas etárias, formulação e gestão de experiências educacionais, coordenação pedagógica e assessoria didática a professores e alunos em situação de ensino aprendizagem, coordenação de atividades de estágios profissionais em ambientes diversos, formulação de políticas de avaliação e desenvolvimento de práticas avaliativas no âmbito institucional e nos processos de ensino e aprendizagem em vários contextos de formação.
Podemos ver o quanto é amplo o campo do pedagogo e o quanto ele é importante para a sociedade. Tendo consciência disso, as universidades deveriam se preocupar em formar pedagogos comprometidos com a educação e que busquem transformar a realidade, e não em formar pedagogos para inserir em um sistema educacional, que há muito tempo está falido.
O problema é que são poucas as universidades que são realmente comprometidas com a educação. A maioria delas se preocupa em lucrar e formar profissionais que se adéqüem ao mercado de trabalho. Pois o que conta é a quantidade de profissionais que ela consegue inserir no mercado de trabalho e não quantos conseguiram desempenhar seu papel na sociedade, de maneira que contribui para transformação da mesma.
As universidades deveriam formar intelectuais orgânicos, que segundo Gramsci são profissionais que estão sempre em movimento, conectados com a realidade, vinculados com a cultura, à história do seu tempo e que estão sempre preocupados com a sociedade.

Bibliografia:
AGUIAR, Márcia Ângela da S.: BRZEZINSKI, Iria; FREITAS, Helena Costa L.; SILVA, Marcelo Soares Pereira; PINO, Ivany Rodrigues. Diretrizes Curriculares do Curso de Pedagogia no Brasil: Disputas de projetos no campo da formação do profissional da educação. Caderno de Pesquisa vol.27, no. 26 , Campinas. Outubro 2006. Disponível em: http:www.scielo.org
FRANCO, Maria Amélia Franco; LIBÂNEO, José Carlos; PIMENTA, Selma Garrido. Elementos para a formulação de diretrizes curriculares para cursos de pedagogia. Caderno de Pesquisa vol.37 no. 130 São Paulo Jan/Abr. 2007 Disponível em: http:www.scielo.org/
SAVIANI, Dermeval. Pedagogia: o espaço da educação na universidade. Caderno de Pesquisa. Vol.37 n.130 São Paulo Jan/Abr.2007 Disponível em: http:www.scielo.org/
SEMERANO, Giovanni. Intelectuais Orgânicos em Tempo de pós-modernidade. Caderno de Pesquisa. Vol.26 no.70 Campinas Set/Dez. 2006 Disponível em: http:www.scielo.org/

INFORMAÇÃO 41

Convidada do mês de outubro
Caros leitores, é com imensa alegria que receberemos no dia 25 de Outubro a convidada Raquel, estudante de pedagogia. O texto de Raquel, vem acrescentar conhecimento histórico sobre curso de pedagogia.
Raquel, agradecemos muito a participação e esperamos contar com sua visita mais vezes.
Seguem os dados da convidada:

Raquel Ferreira dos Santos Tomaz
Estudante do primeiro ano de Pedagogia na Universidade Mackenzie.

Equipe Estação ‘D’

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A conquista do espaço

De acordo com o livro O que é o Feminismo, a desigualdade entre os gêneros está presente na história desde a Antiguidade. Todavia, parece haver pouco material sobre a mulher mesmo antes desse período, o que evidencia a atribuição de maior valor ao homem – dado que a história geralmente o possui como centro, se comparado com a mulher. O predomínio de um pensamento voltado ao homem é algo que, ao menos em nossa sociedade, soa como natural, assim como o machismo – por mais que hoje ele apareça de maneira “mascarada”[1]. O que pretendo neste breve texto é dissertar sobre o gênero feminino e a “quebra” da relação entre espaço privado e público, a qual contribuiu para certa liberdade e conquista de relativo espaço feminino – na minha perspectiva, ainda tímido – na esfera pública. Para tal, é crucial o estranhamento em relação à maneira habitual que o homem olha para a mulher (e também a forma como ela olha para si mesma), para que assim seja possível um olhar não machista, ou menos machista, ainda naturalizado em nossa sociedade. Nesse sentido, tentarei fazer esse estranhamento e convido o leitor a fazer o mesmo.
Na Idade Média a mulher possuía um espaço maior na esfera pública – por mais que tenha ficado marcada sua presença nesse período como uma pessoa frágil, indolente à espera de seu cavaleiro, pelo romantismo da cavalaria. Antes e depois disso seu espaço não era tão representativo, mas em momentos de guerra a mulher possuía também um papel extra doméstico.
No livro O que é o feminismo, há exemplo do pensamento dos “letrados” em relação à mulher em 195 D.C. “Os senhores sabem como são as mulheres: façam-nas suas iguais, e imediatamente elas quererão subir às suas costas para governá-los” (ALVES e PITANGUY, 1984, p.14-15) – Senador Marco Pórcio Catão, discurso contra a revogação da lei que excluía as mulheres dos transportes públicos. E uma igualdade entre os sexos demorou a ser questionada efetivamente: “Até o século XVIII, a problemática da igualdade dos sexos não havia sido sequer cogitada” (YANNOULAS, 1994, p.7). Ora, estando a mulher presente na história desde o momento da existência do homem, ao menos teoricamente, por que ela não foi e ainda não é tão valorizada mesmo em ambientes acadêmicos[2]? Será que hoje e no passado o homem esteve preocupado em perder seu espaço para o “sexo frágil”, dado que as potencialidades do gênero feminino se mostraram tão ou mais relevantes do que a mesmice cognoscitiva masculina? Eis alguns dos questionamentos que percorrem minha mente em relação ao estudo do gênero feminino.
O capitalismo foi um importante instrumento para a divisão social do trabalho. Segundo Émile Durkheim, essa divisão do trabalho geraria entre os homens a solidariedade orgânica, a qual tornaria as pessoas mais independentes; mas, ao menos nos casos considerados “normais”, os sujeitos sociais perceberiam a importância de um para o outro no seu dia a dia. Poderíamos afirmar com isso que o papel dito da mulher, tanto na esfera pública quanto na esfera privada, passaria assim a ser valorizado pela humanidade como um todo[3]? Infelizmente a história nos mostra mais do mesmo. Os burgueses:

“Provaram à sua inteira vontade que a mulher é um ser inferior, incapaz de receber uma cultura intelectual superior e de fornecer a soma de atenção, de energia e de agilidade que reclamam as profissões em que ela deseja entrar em concorrência com o homem (...) Conclui-se pois que sob os pontos de vista moral, anatômico e fisiológico, a estatística social e histórica demonstra sempre que a mulher só está apta a desempenhar funções domésticas” (LAFARGUE, 1979, p. 41-42).

Óbvio que com o tempo esse pensamento sofreu transformações, mas, ao menos inicialmente, o ethos da burguesia não trouxe consigo a valorização da mulher (será que realmente esse ethos trouxe consigo alguma valorização da mulher, por mais que fosse de maneira subdesenvolvida?). E quando as mulheres conquistaram o espaço acadêmico: “Estas demonstraram que o cérebro feminino, classificado pelos intelectuais como um ‘cérebro de criança’, era tão dotado como o cérebro masculino para assimilar todo o ensino científico” (Idem, p. 42). Mas, voltando ao capitalismo especificadamente:

“O capitalismo não desviou a mulher do lar para a produção social com o intuito de a emancipar, mas sim com o objetivo de a explorar ainda mais ferozmente do que explora o homem. A mulher, espoliada pelo capital, suporta as misérias do trabalhador livre e carrega ainda por cima as cicatrizes do passado” (Idem, p. 43).

Poderíamos acrescentar ainda que a mulher recebe salários desproporcionais a seu cargo, quando é comparada com um homem que exerce o mesmo cargo que o seu; e também possuir uma dupla jornada de trabalho.
Fica na mente do senso comum – ao menos naquelas mentes do senso comum em que o pensamento ocidental[4] consegue envolver e manipular sem com isso gerar nos sujeitos sociais pensamentos críticos em relação à estrutura social da qual faz parte – a impressão de que em todas as sociedades, de maneira geral, houve esse domínio do homem sobre a mulher, como também de sua pouca participação, senão nula, no espaço público. No entanto, isso é uma inverdade. Como exemplo para o estímulo a uma possível descristalização desse pensamento, ao menos das mentes ocidentais nas quais o machismo está ainda muito presente, resgato o seguinte trecho:

“Desmistificando a idéia de que a sujeição da mulher seja um destino irrevogável, a-histórico e universal, levanta-se a experiência da relação entre os sexos existente na Gália e na Germânia (...) Da mesma forma, os cronistas, europeus do século XVI, chegando à América, se surpreendem com a relevância da posição da mulher entre os Iroqueses e Hurons. Nestas sociedades de caçadores e coletores não havia uma divisão estrita entre economia doméstica e economia social. Inexistia o controle de um sexo sobre o outro na realização de tarefas ou nas tomadas de decisões. As mulheres participavam ativamente das discussões em que estavam em jogo os interesses da comunidade” (ALVES e PITANGUY, 1984, p. 15-16).

Seria então o pensamento ocidental, desbravador de terras e mares, um dos responsáveis de quilate pelo machismo presente ainda hoje em nossas sociedades?
Até os anos 60 as mulheres não podiam sair de casa para realizar trabalhos simples, pois tinham que responder a um ideal romântico masculino; mas com a aceleração da modernização na década de 70 elas passaram a desempenhar maior papel na sociedade civil, por mais que o movimento feminista tenha origem em meados do século XIX. A mulher passa então, com a modernização, a “quebrar” a separação imposta a ela entre espaço público e privado, onde o homem vai ao trabalho e trás o capital econômico para o sustento familiar. Se antes socialmente a mulher era posta como a submissa em relação à divisão dessas esferas, a própria estrutura social auxilia na sua emancipação, embora não tenha sido esse o objetivo do sistema – conforme afirmado acima. E através de lutas feministas a mulher foi, pouco a pouco, conquistando seu espaço no meio social, embora seja contestável o tamanho desse espaço, pois ele faz alusão a um espaço maior do que efetivamente possui. Poderíamos refletir aqui sobre a diferença do cotidiano de operários do gênero feminino e do gênero masculino. Além do trabalho no espaço público a mulher, na maior parte dos casos, ainda realiza sozinha os afazeres domésticos.
Até que ponto ainda há em nós a presença do machismo, por mais que seja de maneira sutil? Isso se torna claro a partir de uma observação de si em relação ao machismo. Embora um olhar para si de maneira não-atenta possa revelar o sujeito como não pertencente à ideologia machista, o olhar mais atendo poderá revelar – ao menos em grande parte dos casos e sem eximir as mulheres dessa reflexão de si – o machismo ainda nos envolve, por mais que seja de maneira etérea.
Pelo que pude perceber do discurso feminista, a mulher não quer uma igualdade entre homem e mulher a ponto de não se distinguir um do outro, mas sim uma igualdade em direitos, salários equitativos, etc. O feminismo parece valorizar a identidade do gênero feminino, como aquele que nunca será igual ao homem por possuir peculiaridades diferentes da dele.

“Se, por um lado, as mulheres passaram a usufruir do prazer sexual, a exprimir seus desejos, a conhecer o próprio corpo, a ler seus sinais e a interpretar suas mensagens, escapando à normatividade das interpretações masculinas que anulavam sua sexualidade e desconheciam seu corpo, por outro lado essas mudanças de comportamento têm provocado muitas tensões e conflitos de gênero, pois ferem o código moral hegemônico masculino, bastante rígido e autoritário” (RAGO, p.39-40).

Evidencia-se através dessa exposição, então, que o movimento feminino conquistou certo espaço no meio social hegemonicamente masculino; mas parece que para maiores conquistas desse espaço faz-se necessárias – ao menos a partir da concepção social quanto ao gênero que hoje encontramos incrustadas nos sujeitos sociais – constantes lutas em prol do feminino.

Notas
[1] Esse machismo é aquele que permeia nossa sociedade sem com isso ser expresso de maneira direta, mas com um olhar atento sobre a perspectiva e mesmo maneira de agir tanto de homens como de mulheres conseguimos constatar essa “maneira de ser” infelizmente ainda dominante na contemporaneidade.
[2] Deve-se salientar que existem variados grupos que estudam o gênero feminino nos meios acadêmicos, mas, ao menos a partir de minha experiência pessoal, pouco se é falado do gênero feminino em discussões em âmbito mais geral e mesmo nas salas de aula senão em espaços característicos, na esfera acadêmica, da discussão de gêneros.
[3] Pela esfera como um todo porque a própria mulher, como se sabe, é duplamente vítima desse machismo; primeiro porque esse pensamento é dominante e por isso está presente de maneira predominante no meio social, segundo porque com essa predominância do machismo a própria mulher acaba reproduzindo em seu pensamento e em suas atitudes essa ideologia machista.
[4] Refiro-me ao pensamento ocidental porque possuo um conhecimento restrito do pensamento oriental.


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Bibliografia:
ALVES, Branca Moreira e PITANGUY, Jacqueline. Introdução e Herança do Silêncio. In. __________. O que é feminismo. São Paulo: Editora Brasiliense, 1984. (Coleção Primeiros Passos, n. 44)
DURKHEIM, Émile. Da divisão do trabalho social. São Paulo: Martins Fontes, 2008. (Coleção Tópicos)
LAFARGUE, Paul. A questão da mulher. In: MACHEL, Samora; LAFARGUE, Paul; KOLLONTAI, Alexandra; KAPO, Vito; CHING-LING, Soon; TU, Mai Thi; POSADAS, J. A libertação da mulher. São Paulo: Global Editora, 1979.
LOPES, Margaret Maria. Gênero e história das ciências: iniciando uma reflexão no Brasil. In: HIRATA, Helena e SEGNINI, Liliana (Org.). Organização, trabalho e gênero. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2007. (Série Trabalho e Sociedade)
RAGO, Margareth. Ser mulher no século XXI ou Carta de Alforria. In VERTURI, Gustavo; RECAMÁN, Marisol; e OLIVEIRA, Suely de (orgs.). A mulher brasileira nos espaços públicos e privados. São Paulo: Perseu Abramo, 2004.
VERTURI, Gustavo; RECAMÁN, Marisol; e OLIVEIRA, Suely de (orgs.). A mulher brasileira nos espaços públicos e privados. São Paulo: Perseu Abramo, 2004
YANNOULAS, Silvia Cristina. Iguais Mas Não Idênticas. In Estudos Feministas, Rio de Janeiro, v.2, p.7-17, 1994.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A mulher na modernidade de Baudelaire

Pretendo, neste espaço, apresentar aos leitores algumas reflexões acerca do poema “A uma passante” - A une passante - do poeta e crítico de arte Charles Baudelaire (1821-1867). Inspirada no tema desta rodada, escreverei algumas impressões a respeito do olhar do eu-poético para a mulher da modernidade. A seguir, o poema traduzido:

A uma passante

A rua, em torno, era ensurdecedora vaia.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão vaidosa
Erguendo e balançando a barra alva da saia;

Pernas de estátua, era fidalga, ágil e fina.
Eu bebia, como um basbaque extravagante,
No tempestuoso céu do seu olhar distante,
A doçura que encanta e o prazer que assassina.

Brilho...e a noite depois! – Fugitiva beldade
De um olhar que me fez nascer segunda vez,
Não mais te hei rever senão na eternidade?

Longe daqui! Tarde demais! Nunca talvez!
Pois não sabes de mim, não sei que fim levaste,
Tu que eu teria amado, ó tu que o adivinhaste!

Antes de mais nada, vejo a necessidade de lhes apresentar um pouco o que pensa Baudelaire sobre a vida moderna. Em seu artigo “O pintor da vida moderna”, o poeta decorre sobre O Belo, a moda e a Felicidade. Detendo-se, mais especificamente, no que ele diz a respeito do Belo, percebemos que se trata de um crítico que estava à frente de seu tempo. Longe de contemplar apenas a arte produzida no passado, ele demonstra que também há beleza no presente: “O prazer que obtemos com a representação do presente deve-se não apenas à beleza de que ele pode estar revestido, mas também da qualidade essencial de presente”. (BAUDELAIRE apud COELHO, 1988, p. 160)
Contemplar o presente, para Baudelaire, é contemplar o que se tem de mais efêmero e passageiro; é contemplar as cidades e os seus altos edifícios, as pessoas que enchem os asfaltos e, num segundo, são apenas na imaginação de quem as observa. Os poetas vão às ruas, e os seus olhares são como uma câmera que captura cenas, aparentemente banais, mas que têm a sua beleza particular e eterna.
A começar pelo título do poema – A uma passante – podemos perceber que o eu oferece a uma mulher o que será dito em versos. Não se trata de uma mulher específica, posto que o artigo transmite essa idéia de não-exatidão, mas de uma mulher que talvez tenha passado por ele, ou de uma mulher que represente todas aquelas que passam, diariamente, nas ruas dos grandes centros.
O eu-poético descreve uma mulher, uma passante, que nada mais é que mais uma composição da cena capturada pelo mesmo; o poema inicia-se com a descrição da rua – para Almeida (1969), a aliteração em “r” presente no primeiro verso da versão em francês dá uma idéia de atravancamento da rua movimentada (La rue assourdissante outour de moi hurlait). A mulher não é descrita pelas suas qualidades até então – ela não é nomeada; é somente na segunda estrofe que começam a surgir algumas caracterizações da mesma. Nessa mesma estrofe, vemos uma distância entre a mulher e o sujeito do poema – pernas de estátua, fidalga. Do mesmo modo, pares antitéticos reforçam essa idéia de distância e encantamento frente ao que o eu-poético observa – “A doçura que encanta e o prazer que assassina”. (4º verso).
Na terceira estrofe, mais uma vez, encontramos elementos que nos dá a impressão de fugacidade e efemeridade – “Um clarão...depois a noite”. (9º verso) A presença da mulher, como que um clarão, um relâmpago, é breve, mas impactante. O eu-poético se pergunta se seria possível vê-la novamente, mesmo que na eternidade – onde seria mais provável o encontro, uma vez que ela existe, agora, apenas na sua imaginação.
Por fim, na última estrofe temos a palavra nunca. O eu do poema reforça a idéia do efêmero, perguntando à mulher, ou se perguntando, se seria possível um encontro entre os dois – a resposta para essa indagação estaria, talvez, no primeiro verso, da mesma estrofe – “Longe daqui! tarde demais! nunca talvez”.

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Bibliografia:
ALMEIDA, G. "Flores das 'Flores do Mal'. Rio de Janeiro: José Olympio, 1969.
COELHO, T. "A modernidade de Baudelaire". Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O gênero feminino como produção cultural

"Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado, que qualificam de feminino. Somente a mediação de outrem pode constituir um indivíduo como um Outro." (BEAUVOIR p.361)

Esse excerto do célebre texto de Simone de Beavouir em o "O segundo sexo" atrai para uma discussão sobre o gênero feminino, a questão do feminino como produção cultural.
Ao lançar olhar para as sociedades que a etnografia descreveu e descreve nos estudos antropológicos, percebemos como o ser humano (para não se conformar com o termo "homem") apreendeu sugestões da realidade empírica, e as teceu em teias intermináveis e imaginosas de significados, configurando as culturas. A própria natureza física lhe forneceu elementos para tais tessituras, como o fato do nascimento, a maturidade e a velhice - diferenças dadas pela idade - e entre outras, a que é do interesse dessa discussão, diferenças de sexo, que sugere a possibilidade do desenvolvimento das ideias de categorização e gênero.
Em diferentes circunstâncias, o "espírito humano vai enredando os elementos que lhe são sugeridos pela realidade, e vai elaborando as culturas - estas vão criando tessituras peculiares.
Ao pensarmos naquela que se pode chamar, cultura do ocidente, nos é perceptível os significados peculiares atribuídos ao gênero feminino. A diferença que há entre os indivíduos de sexo diferente, está escancaradamente expressa nas relações indivíduo/sociedade dentro da cultura ocidental, principalmente, antes do movimento feminista surgir, que por sua vez, veio atenuar e gerar questões que procuravam solucionar a relação de gênero dentro dessa sociedade. Contudo, não pretendo aqui, apresentar uma etnografia da sociedade ocidental, demonstrando como se dão essas relações de gênero, ou investigando as origens dessa elaboração cultural em que o feminino aparece como o gênero que é tratado, segundo os termos de Beauvoir, como o Outro – em relação ao gênero masculino que se revestia de “universal” - dentro da cosmologia dessa sociedade. Não posso ter a pretensão de tentar dizer, como se deu, e em que momento da história ocidental a diferenciação entre os sexos foi traduzida em simbologia, em cultura. O intuito, devidamente tímido deste texto, é demonstrar que o gênero feminino, não possui características psicológicas, comportamentais, sentimentais, ou outras, intrínsecas, como aparece nos discursos do senso comum, ou em discursos que na sociedade ocidental favoreciam a dominação masculina, e que tais características, na sua essencialidade, são produzidas culturalmente.
Recorri ao texto de Beauvoir, com o objetivo de trazer à discussão, um exemplo mais próximo – o de uma realidade que é experimentada até hoje – e que demonstra como o gênero é “qualificado” partindo de preceitos heterônomos e transmitidos como naturais, dentro da cultura, e ainda, que permitirá mostrar como o feminino não possui características universais – pelo menos no que diz respeito a um feminino. Resta demonstrar, que as justificativas que por vezes foram dadas para essa “qualificação”, no caso da sociedade ocidental, não são corretas, pois em diferentes culturas o feminino assume diferentes papéis, diferentes significados, e consequentemente, uma vida diferente para a mulher. Ideias como: “mulher é sensível”, “mulher é mais dócil”, “mulher tem mais facilidade para cuidar dos filhos”, “mulher é mais sentimental” são produções dessa cultura, como já foi demonstrado por tantos estudiosos. Um exemplo de pesquisa que mostra as características do gênero como produção cultural, é o trabalho de Margaret Mead, “Sexo e temperamento”, no qual, ela apresenta dados etnográficos de algumas sociedades em que o modo de pensar, de agir, e de sentir das mulheres, eram completamente diferentes dos das mulheres da sociedade ocidental, e num caso que ela apresenta, o das mulheres era inverso ao das mulheres que conhecemos.
Mead, no belo trabalho que fez, encontrou nas tribos Arapeh, Mundugumor e Tchambuli, um material sobre a personalidade padronizada de homens e mulheres, e que aparecem distintas nas três sociedades. Evidências esmagadoras a favor da força do condicionamento cultural em relação aos tipos de personalidade são fornecidas para uma hipótese que tenta explicar "sobre que bases as personalidades de homens e mulheres foram diversamente padronizadas com tanta frequência na história da raça humana" (MEAD, p.271). A hipótese de que se ocupa Mead, não é objeto da discussão deste texto, pois meu interesse, recai, apenas sobre as evidências trazidas na sua etnografia, para minha pretensão supracitada.
Com este estudo, a autora rompe com um senso comum, do qual ela própria confessa ter compartilhado, de que há um temperamento ligado ao sexo natural, que poderia no máximo ser afastado da expressão normal. A partir de suas observações, entende que, os temperamentos que interpretamos como sendo “naturais” a um sexo, são na verdade variações do temperamento humano a que mulheres ou homens podem, com mais ou menos sucesso, incorporar através da educação e do condicionamento social. Mead afirma que a natureza humana é incrivelmente maleável, e responde de forma diferenciada a condições culturais diversas e contrastantes. As diferenças individuais devem ser atribuídas às diferenças de condicionamento, em particular na primeira infância, e a forma do condicionamento é culturalmente determinada (MEAD, 1988:269).
Por Maria Luiza Heilborn, as atitudes e ações das pessoas que se diferenciam através do sexo variam de sociedade para sociedade, de tempos em tempos:

"O comportamento esperado de uma pessoa de um determinado sexo é produto das convenções sociais acerca do gênero em um contexto social específico. E mais, essas idéias acerca do que se espera de homens e mulheres são produzidas relacionalmente; isto é: quando se fala em identidades socialmente construídas, o discurso sociológico/ antropológico está enfatizando que a atribuição de papéis e identidades para ambos os sexos forma um sistema simbolicamente concatenado" (HEILBORN, 2006).

Com efeito, em vista das sociedades modernas, estamos organizados por critérios de diferenciação, não só de gênero, mas também de raça, classe, origem regional, idade, entre outros, que demonstram experiências sociais bastante diferenciadas. Cabe o destaque para a insuficiência da compreensão da sociedade observando apenas pela ótica do sexo frágil oprimido pela dominação masculina. Ou ainda, sob o ponto de vista de classes antagônicas. É imprescindível, pois, pensar a vida social de forma articulada e concatenada com as mais diversas categorias.
Somam-se a estas observações algumas críticas. A primeira a se destacar diz respeito à singularidade dos papéis. Os significados de masculinidade e feminilidade variam entre as culturas, através do tempo histórico, entre os homens em qualquer cultura. Desta forma não podemos falar de masculinidade e feminilidade como essência constante, singular e universal. Existe então realmente somente um papel sexual masculino e somente um papel sexual feminino? Outras diferenças (raça, classe, sexualidade, idade...) moldam e modificam nossas definições de gênero. Com efeito, a teoria do papel sexual não pode acomodar completamente essas diferenças entre homens e mulheres. Podemos assim falar de masculinidades e feminilidades (KIMMEL, 2000).
Outro ponto que merece destaque diz respeito à estrutura social. A noção de papel e a construção de gênero enquanto um conjunto de atributos individuais dá mais atenção aos indivíduos do que a estrutura social, e sugere que o papel feminino e o papel masculino são complementares. E ainda, a teoria é inadequada na compreensão de dinâmicas de mudança. Na teoria do papel sexual, movimentos pela mudança social, como o feminismo ou a liberação gay, são movimentos pela expansão das definições dos papéis e para a mudança da expectativa desses papéis. Seu objetivo é expandir as opções de papéis para mulheres e homens, cujas vidas são constrangidas por estereótipos tendo como objetivo a redistribuição do poder na sociedade. Demandam realocação de recursos e o fim de formas de desigualdade que estão embutidos nas instituições sociais, bem como os papéis e estereótipos sexuais (KIMMEL, 2000).

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Bibliografia:
BEAUVOIR, Simone de "Introdução"; "Infância" in: O Segundo sexo; tradução Sérgio Milliet. - 2.ed. - Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009. volume 2.
MEAD, Margaret. "Introdução", "A padronização do temperamento sexual", "Conclusão" in: Sexo e Temperamento. São Paulo: Perpectiva, 1988.
SANTOS, Magda G. dos “Beauvoir e os paradoxos do feminino” in: CULT – Revista Brasileira de Cultura. São Paulo. V. 133, Ano 12. págs. 58 – 61. Março/2009.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O gênero feminino: presença, ausência, emergência...?

A presente publicação corresponde à quarta rodada temática, “O Gênero Feminino”. Aqui se pretende destacar o “lugar” do gênero feminino e as tentativas de realocação do gênero com alguns de seus possíveis desdobramentos. Para isto, seguiremos alguns pontos considerados por duas autoras: Andrée Michel, em “O feminismo: uma abordagem histórica”, e Rosiska Darcy de Oliveira, em “Elogio da diferença: o feminino emergente”. Esta publicação pretende lançar luz sobre o tema segundo as perspectivas destas autoras, e possibilitar elementos que possam ser discutidos nas próximas publicações referentes a esta rodada.
Andrée Michel, autora francesa, em seu livro “O feminismo: uma abordagem histórica”, nos coloca frente ao que considera ser a história da repressão à mulher e a resistência desta à repressão e ao enclausuramento. É apontado que a mulher se situa não apenas em uma “falocracia” – androcracia ou sistema patriarcal – que é dominação masculina, mas em uma falocracia que é também um sistema que

utiliza de forma clara ou sutil, todos os mecanismos institucionais e ideológicos ao seu alcance (o direito, a política, a economia, a moral, a ciência, a medicina, a moda, a cultura, a educação, os meios de comunicação etc.) para reproduzir essa dominação dos homens sobre as mulheres, assim como o capitalismo os utiliza para se perpetuar (MICHEL, 1982, p. 8).

A autora se remete à condição das mulheres até o século XX, e, inevitavelmente, após uma leitura de sua obra no século XXI, nos impõe a questão de se o que foi destacado por ela se confirma no século XXI.
Segundo a autora, “a história das mulheres é não só a história de sua repressão mas também a história, igualmente oculta até o momento, de sua resistência secular a essa repressão e ao seu enclausuramento” (MICHEL, 1982, p. 98). Fala-se aqui de uma resistência, e, segundo minha interpretação, resistir a alguma coisa implica manter-se em sua posição. Seria o feminino, então, em um dado momento, presente.
A autora destaca que a partir do Renascimento o protesto feminino é acelerado na medida em que os ideais formulados atingem outras camadas sociológicas que até então não haviam sido atingidas. As contestações culminaram em movimentos de libertação das mulheres. O direito ao voto, os anticoncepcionais químicos, entre outros, são considerados pontos vitoriosos para as mulheres. Mas não é exatamente esta a opinião de Andrée Michel. A vitória da luta feminina viria com o cumprimento de um objetivo: uma luta internacional das mulheres. Estaria no potencial deste movimento não apenas os direitos das mulheres, mas eu diria, diante da minha interpretação, um potencial revolucionário. “Em vez da concentração de riquezas nos países do Hemisfério Norte e da pauperização crescente dos inúmeros países do Hemisfério Sul, elas exigirão uma repetição justa em escala internacional dos recursos mundiais e da produção” (MICHEL, 1982, p. 101). Fala-se aqui de um movimento de emancipação, não apenas resistência, e sim uma busca por uma determinada posição – ou ainda, uma empreitada para possuir um lugar. Seria o feminino, então, de alguma forma, ausente, em busca de presença.
Rosiska Darcy de Oliveira, em “Elogio da Diferença: o feminino emergente”, destaca que as mulheres buscam sua identidade, que está para além do mimetismo. Mas como se faz possível o dizer desta diferença?

a simples formulação, o dizer dessa diferença é improvável quando, para fazê-lo, dispõe-se de um arsenal de palavras e conceitos alheios. Quando essa diferença deve se exprimir a partir de um discurso que, ele mesmo, é masculino (...) Não é, certamente, um acaso que os primeiros traços de emergência do feminino apareçam timidamente na literatura do começo do século, refugiados no imaginário, lá onde a fantasia insubmissa supera a descrição do mundo e busca inventá-lo. A literatura não foi para as mulheres uma simples transgressão das leis não escritas que lhes proíbam o acesso à criação. Foi, muito mais que isso, um território liberado, clandestino, pulsando ao ritmo emocional dessa clandestinidade e desse risco. Saída secreta da clausura da linguagem e de um pensamento que as pensava e descrevia in absentia (DE OLIVEIRA, 1993, p. 12).

Para Rosiska de Oliveira, além da literatura, também o engajamento na ciência foi uma transgressão. Foi, segundo esta autora, a apropriação do mais precioso instrumento da cultura masculina. Mas outras passagens da fronteira do mundo dos homens ocorreram, o que significou também que muitos estilos masculinos foram adotados. Mas foram os homens também feminizados?
Vigorou durante muito tempo a atribuição do direito ao masculino para definir o feminino como o seu avesso. Mas Rosiska Darcy de Oliveira afirma que a emergência do Feminino enquanto paradigma cultural vem se fazendo sem nem mesmo ter sido citado o seu nome. A emergência do Feminino significa, para esta autora

(...) procura de um entendimento do mundo que não se contente com a utilização exclusiva da razão por não concebê-la como todo-poderosa. Na recusa de aceitar o corpo como instrumento submisso da produção e na tentativa de reconquista de suas dimensões eróticas. No balbuciar de uma linguagem, às vezes ininteligível, feita mais de silêncios e de escuta que de expressão codificada, o Feminino emerge como esforço de alteridade, de reconhecimento de lugares outros onde o humano possa contemplar sua experiência, imaginar-se diferente, conceber-se novo, mesmo se o novo busca sua seiva no que parecia passado (...) Na concreção da vida, feminizá-la significa rever o lugar do trabalho na existência cotidiana de homens e mulheres, redefinir o político, interrogar a ciência e a arte pelo viés da desconstrução de conceitos e da invenção da linguagem. Essa feminização vem se dando, ainda que não se a chame como tal ou que nela não se tenha identificado a marca do Feminino (DE OLIVEIRA, 1993, p. 16).

Diante disto o movimento caracterizado como “Feminino emergente” é também a possibilidade do encontro das mulheres consigo mesmas e de que sem desigualdade os homens e as mulheres possam se reconciliar. Se o gênero feminino ocupar o seu lugar, promoveria a interrogação, a abertura, a reorganização dos objetos em relação a si mesmos e em relação uns aos outros, uma realocação do mundo e dos valores. Esta parece ser a assertiva da autora. Em “Elogio da diferença”, diz-se que o movimento feminista ficou conhecido como “a expressão coletiva desse questionamento de normas-valores e modos de organização” (DE OLIVEIRA, 1993, p. 48). Se se fala de emergência, fala-se de um movimento que, de alguma forma, se mostra ou mostra o feminino. Mas esteve o feminino realmente ausente, ou estaria ele presente de uma determinada forma?
Se se assume que o feminino esteve presente em um conflito entre o masculino, que lhe encobre, e o feminino, que lhe impulsiona a mostrar-se, como o “estar entre dois territórios” repercute no sujeito? “Gregory Bateson chama ‘dupla coerção’ (Double bind) a situação em que se encontra uma pessoa submetida, permanentemente, a ordens que se excluem ou se negam umas às outras, sem que ela tenha possibilidade de escapar do campo onde interagem essas ‘injunções contraditórias’” (DE OLIVEIRA, 1993, p. 77). As mulheres mergulhadas na ambigüidade – coexistência em si mesmas das contradições impostas de fora – e, portanto, tornando-se pessoas cujo comportamento pode ser interpretado de forma a provocar dúvida, incerteza e confusão, para o próprio sujeito, teriam como saída a ambivalência? a integração? A permanência na ambigüidade? Ou estas categorias utilizadas estariam elas mesmas determinando de alguma forma um caminho errôneo para o gênero?


Bibliografia:
DE OLIVEIRA, Rosiska Darcy. Elogio da diferença: o feminino emergente. São Paulo: brasiliense, 1993.
MICHEL, Andrée. O feminismo: uma abordagem histórica. São Paulo: Zahar, 1982.

"Desejamos que o espaço seja acolhedor a todos que chegam, agradável a todos que passam, e útil a todos que partam."